A malandragem é um desajuste da realidade, pois é quando o que deveria acontecer de acordo com a ordem natural e justa do Universo é desviado pela mão do malandro.

Desta forma, sai do fluxo correto das coisas para prejudicar alguém e favorecer outro que não merece, por anterior motivo de ser injusto.

E, sabendo disso, um Rei de uma antiga lenda chinesa, ao resolver se casar, convocou todas as moças do condado a irem ao castelo real para lhes fazer uma proposta.

Neste contexto, uma pobre imigrante, que não acreditava ter chances com a Majestade, foi até o castelo apenas pelo temor de sofrer alguma represália da corte.

O Rei, então, distribuiu uma semente para todas as moças, e prometeu que sua futura rainha seria aquela que melhor cultivasse a flor da semente dada e não de outra.

Certamente, era uma situação propícia para trapaças e, ainda, valia a realeza.

Para muitos, a malandragem é muito atraente porque possui as suas vantagens, as quais soam como justas para quem tem o caráter falho.

Ainda mais, quando o trapaceiro é um mestre em ser injusto às escondidas, conseguindo dissimuladamente com que todos o considerem nobre e leal.

Isso significa atalhar um caminho que deveria ser mais longo. Da mesma forma, é ter mais fazendo menos e, ainda pior, sem punição.

Então, o indolente acredita que é feliz mesmo afogado em sua fraqueza.

Obviamente, ser justo é para os fortes, porque é preciso abrir mão dos benefícios da trapaça para ser correto.

Quando as vantagens de ser correto não são imediatas, e nem há quaisquer punições para os falhos de caráter, requer-se muita resiliência e ombridade para escolher o caminho da honestidade.

Ou seja, deixar agir naturalmente a lei do Universo, que consiste na justiça, é estar de acordo com os desígnios divinos.

Inegavelmente, a malandragem é uma opção disponível nesse mundo, mas a lisura é uma decisão da alma. E não interessa de onde você vem ou como você se parece.

Se você é capaz de ser justo, sua alma é gigante e valorosa.

Então, um ano depois, a flor da jovem imigrante ainda não havia brotado quando o Rei convocou novamente todas as moças a voltarem ao castelo.

A pobre moça chegou e logo começaram a rir da sua cara, pois ela era a única que não tinha uma flor em suas mãos.

O Rei olhou uma a uma. Até que avistou a jovem sem flor.

– Onde está sua flor?

– Me desculpe, Vossa Majestade. Ela não brotou.

A jovem trêmula falou encarando o chão, enquanto algumas moças tentavam segurar o riso.

O Rei nada disse e resolveu analisar outras jovens, as quais ostentavam flores lindas e vívidas, transbordando de seus vasos.

Então, ele se sentou em seu trono. Ficou pensativo por instantes e declarou:

– Tenho minha decisão. A futura rainha é… Você!

E para o choque de todos, ele apontou para a moça sem flor.

– Eu?! Mas, sou apenas uma pobre imigrante, sem flor.

– Mas é a única moça honesta do meu reino.

– Por que dizes isso, Vossa Majestade?

– Porque todas as sementes que distribuí eram estéreis. Nenhuma deveria ter brotado, exatamente, como a sua.

E, assim, o Rei encontrou a sua nova Rainha.

Portanto, mesmo que lhe chamem de ingênuo ou riam da sua cara, lembre-se de que a integridade pode não ser um valor para os homens, mas o é para os Anjos.

Exatamente por isso que a malandragem é rápida e a nobreza vive a longo prazo.

Por isso, ame a verdade. Mais do que isso, faça do seu caráter a sua bandeira e construa uma verdadeira realeza no seu coração.

Assim, mesmo preterido na Terra, será o preferido dos anjos e, pode acreditar:

Eles lhe abrirão, no amanhã, as portas do céu.

COMENTÁRIOS




Luciano Cazz
Luciano Cazz é formado em Comunicação, também ator e roteirista pela NYFA (New York Film Academy). Além de estudante de Psicanálise. Autor do livro A Tempestade Depois do Arco-íris.