A flor seca com o passar da formosura das primaveras petrificando sua beleza no pretérito imperfeito. O brilho de toda única noite estrelada se apaga para nunca mais regressar, enquanto as rugas vêm do correr de um indomável tempo que não nos espera nem nos avisa, não se submete nem retorna ao que já foi. Então, da fugaz formosura das coisas, brota constantemente desse ir sem volta, cheia de si, a teoria de que a beleza é efêmera.

E, todo ano, o outono nos repete isso quando as folhas caem secas confirmando que a beleza não é continuante como o tempo, pelo contrário ela é contraditória ao passar dos dias, porque, quanto mais o tempo corre mais a beleza se cansa e se desbota, ruindo como a rocha desgastada pela erosão da vida. Assim, o tempo segue aumentando o tamanho da existência e a expandindo o Universo, enquanto a beleza desvanece até deixar de existir.

Se isso implica um certo desassossego, uma certa falta de asseguramento, uma certa confrontação com os riscos das mudanças, esse é o preço a ser pago pelo que está vivo. O tempo nos toma a beleza da vida como o fogo que se alastra fervorosamente levando tudo aquilo que queima com o passar das estações.

E, se não aprendemos sobre o que realmente há de belo na vida, assistiremos uma melancólica ruína da beleza física, um sofrido adeus a tudo que nos é material ou coisa.

Mais do que focar no objeto estático e finito, limitado por curvas e arestas, encarar o além dele. E, então, poderemos enxergar a vida de olhos fechados.

É assim que, sublime, a beleza eterna pode brotar como uma rosa linda em um jardim florido que jamais se despetalará. De um lado o tempo corrói a fachada dos castelos, de outro ele constrói a graça, o encanto, a grandiosidade dos cômodos da nossa alma. Por mais belo que seja um quadro, nós não embelezamos suas linhas bem-feitas. É a tinta que faz. Somos escultores não do que possuímos, mas do que sentimos e somos, dos nossos sonhos e anseios. De todos os sentimentos que carregamos no coração. Não possuímos as cores, mas aquilo que a pintura da alma representa com os nossos traços de emoção.

Enquanto o belo das coisas foi feito para se deteriorar nesse mundo, a beleza daquilo que nos tornamos no decorrer da vida segue com a gente para a eternidade. Precisamos resistir à ferrugem que atinge o nosso coração, como é incapaz o ferro, e ao vento que derruba nossas esperanças, como não conseguem as tais folhas de outono. Precisamos lutar contra as tempestades mesmo que elas nos tragam rugas de preocupação, que não passarão dessa vida, bem ao contrário do envelhecimento da nossa alma florescente, que segue como a dádiva dos que entendem a beleza que não se vê.

É o amor que as pedras não sentem. A resiliência que as flores não têm. É a generosidade do coração que a beleza das coisas não possui.

E todas estas humanidades nos fazem vencer a nós mesmos alcançando o objetivo pelo qual fomos enviados a este mundo, pois se enxergamos apenas com os olhos, seremos digeridos pela terra ao fim da nossa temporada por aqui, por outro lado, ver com a alma nos garante a eternidade do correr do tempo ao lado dos anjos que habitam os céus.

Então, viva, seja flor, plena e mágica. Floresça e encante almas antes que o tempo seque seu corpo e seu coração e, assim, seu perfume será eterno na saudade de quem te ama, porque não é na rosa florida que está a sua melhor beleza, mas nos olhos de quem vê o belo em tudo que a rosa, agora, seca um dia foi capaz de encantar.

A memória, esta sim, é capaz de vencer o tempo com a ajuda do amor.

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Luciano Cazz
Luciano Cazz é formado em Comunicação, também ator e roteirista pela NYFA (New York Film Academy). Além de estudante de Psicanálise. Autor do livro A Tempestade Depois do Arco-íris.