As pessoas estão o tempo todo querendo nos punir porque não satisfazemos seus egoísmos. Não porque se acham melhores, mas, exatamente pelo contrário, porque uma pequena rejeição pode despertar todo desvalor que têm de si mesmas.

Vivemos em um aglomerado de pessoas vingativas. O ímpeto da revanche circula o tempo todo pela nossa sociedade. Difícil passar qualquer desagrado sem uma vingança bem mal arquitetada. Mesmo sem querer, uma fechada de trânsito já é suficiente para traçarem um plano de como alcançar o motorista descuidado e fechá-lo também, talvez dizer alguns palavrões ou, às vezes, optar por consequências drásticas, embora ignorantes.

“Vou ver”, “Confirmo mais tarde” ou “Vou tentar” porque é impossível dizer não nessa sociedade, pois a rejeição pode ser o ponto inicial de um grande estratégia de vingança. O inconsciente da pessoa grita “Como assim não?”, “Ela vai me pagar!”. E, então, fazem de tudo para desmoralizar nossa imagem diante dos outros e tentam nos boicotar o tempo todo para que o fracasso da rejeição esteja em nós e não na incapacidade dela em nos conquistar.

A pessoa inflama quando a gente chega porque a rejeição não morre em quem não tem autoestima, pelo contrário, ferve dentro de si o tempo todo.

Também não podemos falar mais a verdade. Às vezes, a vingança é na hora, quando nos jogam na cara algo que estava guardado a muito tempo por pura revanche e não pelo melhor funcionamento do mundo. Outras vezes, ganhamos um inimigo mortal quando expressamos uma crítica. E esse ódio tem como objetivo tamponar a verdade que não suportam enxergar. A vingança os distrai de si mesmos, da sua própria mediocridade. Mas porque?

Porque a sociedade não tem autoestima para encarar uma fechada no trânsito, quanto mais um não ou uma verdade dolorida jogada bem na cara. Falta maturidade para aceitar limitações e defeitos. E sobra infantilidade para gastar tempo e energia em planos ridículos de vingança, cujas punições demonstram mais o quanto uma pessoa é frustrada do que seu real valor.

Então, é a atendente que se vinga com um péssimo serviço porque não dissemos bom dia em uma manhã em que não estamos bem. É o cozinheiro que cospe na comida porque a carne não veio no ponto que pedimos. É chefe que nos manda refazer um trabalho pronto porque não trouxemos um café para ele. É a mulher que trai porque o marido esqueceu o aniversário de casamento. É o homem que agride a ex porque não aceita o término da relação. O amigo que desiste de encontrar porque não queremos ir no restaurante que ele sugeriu. E, assim a sociedade entra em uma constante de vingança viciante que toma conta do funcionamento das coisas, adquirindo uma importância maior do que deveria, por pura falta de autoestima.

As pessoas não conseguem deixar ir porque se sentem pequenas em relação a elas mesmas.

O ego infla e, então, suas limitações e incapacidades tornam-se inaceitáveis. A vingança não é sobre quem fez mal, mas sobre tudo aquilo que o vingativo não é. Porque quem é bem resolvido deixa que a vida se encarregue de revidar, aliás, revanche melhor do que a lei do retorno não existe. Mas muita gente prefere ser mesquinha, ignorante ou maldosa com muita gula por esse prato que se come frio. Então, a ordem do mundo vira e a justiça divina, em vez de ir atrás da pessoa que falhou, vai atrás da pessoa que se vinga.

Assim, a sociedade segue desperdiçando tempo ao revidar os erros dos outros, em vez de construir felicidade. Segue pagando pelas próprias vinganças, em vez de aceitar os outros como eles são, como querem ser aceitos com suas falhas e vontades próprias. Muitos estão perdidos na ignorância de não saber que o sentido da vida é exatamente o contrário: perdoar e seguir em frente.

Pois, a vida é curta parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir.

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Luciano Cazz
Luciano Cazz é formado em Comunicação, também ator e roteirista pela NYFA (New York Film Academy). Além de estudante de Psicanálise. Autor do livro A Tempestade Depois do Arco-íris.