À primeira vista, quem vê a Mari Gonzalez do BBB 20 falando, fica com a impressão de que ela não tem muito a mostrar, que precisa mais apreender do que ensinar, visão equivocada, por certo. Porque se a gente adentra o olhar além da forma linda e lenta, e passa a escutar a voz da sua alma, vamos de um oposto ao outro, sem tempo de conseguir entender o que Mari nos acomete.

Ela perguntou se deveria se impor mais, ser mais rude?

Não Mari, não precisa, você nos mostra com exatidão o ponto de equilíbrio do ser humano. A mistura perfeita de doçura com força. Porque sinceridade não tem a ver com gritos e falta de respeito. Impor-se não significa brigar e ser cruel. O conteúdo é muito mais denso do que qualquer destempero ou deboche.

Sua fala titubeada não significa confusão, mas sabedoria.

Você fala e ao mesmo tempo escolhe as palavras por pura generosidade. De uma retórica excelente, sua alma nos diz com firmeza aquilo que sua mente talvez nem tenha certeza. Mari é rara, mas deveria ser o padrão de uma humanidade que jura almejar viver em paz.

E foi nos mostrando isso que ela conquistou um país em pé de guerra, afogado em discursos de ódio, posturas de raiva tanto de um lado quanto do outro, repletos de olhos famintos pela derrocada seja de quem for, enquanto Mari, em sua decência, evita acusar seus concorrentes de paredão.

Foi aceitando o diferente sem se afastar que ela nos aproximou de si.

Foi propondo o intercâmbio de qualidades e a contenção de defeitos que ela nos superou e se tornou, se não a mais eficiente competidora, a melhor pessoa desta edição.

Essa menina mulher, de jeito frágil ficou 26 horas na prova de resistência. Foi o primeiro sinal. Mesmo, às vezes, atrapalhada, tornou-se líder na prova de coordenação motora. Foi a sua redenção porque Mari tem foco, ainda que a gente pensasse que ela ficaria em último pela enganadora impressão de distraída.

Não, Mari não é tonta, mas nós fomos por um tempo, enquanto ela ficava lá atrás nas enquetes. É porque crescemos acreditando que ou se é bobo ou sábio. Não estamos acostumados a este tipo de personalidade que, ao mesmo tempo, nos faz rir e nos ensina, que de fala mansa se coloca com firmeza. Que grita, falando baixo. Que nos mostra como é lindo ser imperfeito, deixando a gente mais calmo em relação a nós mesmos.

Mari nunca foi planta. Sempre foi flor. Nossos olhos que estavam perdidos.

Acredito que o sucesso dessa edição do reality não se dá somente pela quarentena, mas pela escolha dos participantes e graças aos excelentes editores do programa que nos mostraram a riqueza humana do Babu, a extraordinariedade rara de Manu, a forma elegante e refinada de se colocar da Rafa, a raça de Thelma que nos manda o recado de que o mundo pertence a quem vai à luta.

E qualquer um deles ganharia qualquer uma das outras edições. Mas eles entraram na casa juntos. Azar? Sorte. O que torna o mérito da Mari ainda maior.

Porque se não ganhar aqui fora, com certeza é a preferida dos Céus.

Duvido muito que ela não seja assim atrás das câmeras, mesmo diante de um jogo onde vale ficar milionário. Mas isso não importa, pois ela soube nos ensinar a usar força sem machucar. Mostrou claramente que a compreensão deve ser maior do que o julgamento. Que opiniões e posturas contrárias podem conviver juntas no carinho. Resgatou uma educação perdida e reforçou conceitos de empatia, respeito e lealdade. Mari também valorizou a integridade e a qualidade da pureza, deixando claro que o ser humano vai muito além do que aparenta. 

E, o mais importante de tudo, conseguiu nos fazer enxergar que o mundo precisa, urgentemente, de pessoas melhores, muito melhores.

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Luciano Cazz
Luciano Cazz é formado em Comunicação, também ator e roteirista pela NYFA (New York Film Academy). Além de estudante de Psicanálise. Autor do livro A Tempestade Depois do Arco-íris.